A era das previsões vira fenômeno de massa e transforma a relação com o futuro
Explosão dos mercados de previsão nos EUA atrai empresas, bilhões em apostas e reacende debates sobre regulação, confiança e riscos sociais
Às vésperas de 2026, a tradicional temporada de balanços e projeções econômicas ganhou um novo protagonista. Além das previsões feitas por economistas e analistas sobre inflação, geopolítica e mercados financeiros, cresce rapidamente a participação de amadores em plataformas digitais que permitem apostar sobre praticamente qualquer evento futuro. O fenômeno, que ganhou força nos Estados Unidos, marca a ascensão dos mercados de previsão como um novo elemento da economia digital.
Nos últimos dois anos, a atividade nessas plataformas se multiplicou de forma exponencial. O volume mensal negociado saltou de menos de US$ 100 milhões, no início de 2024, para mais de US$ 13 bilhões. A tendência deve se intensificar: projeções do Citizens Financial Group indicam que as receitas das empresas do setor podem crescer cinco vezes até 2030.
Sites como Kalshi e Polymarket permitem que qualquer pessoa faça apostas sobre temas que vão muito além do esporte ou da política. Eleições, indicadores econômicos e grandes competições continuam dominantes, mas o cardápio inclui desde o Oscar e a carreira musical de Taylor Swift até disputas tecnológicas, ameaças sanitárias e a longevidade política do presidente dos EUA, Donald Trump.
Um exemplo emblemático foi registrado recentemente no Kalshi: quase US$ 15 milhões foram apostados sobre a possibilidade de o modelo de inteligência artificial Gemini, do Google, superar o Grok, ligado a Elon Musk. O mercado atribuiu cerca de 95% de probabilidade de vitória ao Gemini, ilustrando o grau de sofisticação — e também de ousadia — dessas apostas.
A entrada de novos players reforça a consolidação do setor. Empresas como Coinbase, Gemini, FanDuel, Robinhood e a Truth Social passaram a explorar esse mercado, em alguns casos com apoio indireto de operadores tradicionais, como a Bolsa de Valores de Nova York.
Uma das explicações para essa expansão é regulatória. Durante anos, os mercados de previsão enfrentaram dificuldades para operar nos EUA devido ao mosaico de leis estaduais sobre jogos de azar. Decisões judiciais recentes permitiram que plataformas como o Kalshi passassem a operar sob a supervisão da Comissão Reguladora de Operações a Futuro com Commodities (CFTC). Ainda assim, especialistas apontam zonas cinzentas legais, inclusive reconhecidas por Jay Clayton, ex-presidente da SEC e atual procurador federal em Nova York. Mesmo assim, o ambiente político em Washington sinaliza maior tolerância, em linha com uma agenda de desregulamentação.
Há também fatores culturais. O lockdown da covid-19 acelerou a “gamificação” das finanças, com plataformas digitais tornando o investimento e a especulação mais acessíveis. Entre jovens da geração Z, o mal-estar político e o niilismo econômico parecem ter alimentado essa disposição ao risco. Soma-se a isso uma mudança profunda nos padrões de confiança: enquanto instituições tradicionais perdem credibilidade, cresce a influência de grupos on-line, redes sociais e sistemas de avaliação entre pares.
Esse deslocamento da confiança do eixo vertical para o horizontal traz oportunidades e perigos. De um lado, amplia a democratização das previsões e, em alguns casos, gera resultados mais precisos do que pesquisas tradicionais — como ocorreu na eleição presidencial dos EUA em 2024. De outro, abre espaço para manipulação, retroalimentação de percepções distorcidas, polarização e aumento do vício em apostas, com impactos sociais relevantes.
A expansão da inteligência artificial tende a intensificar esse movimento, ao reforçar a sensação de autonomia individual e integrar bots e sistemas automatizados ao cotidiano das comunidades digitais. Diante desse cenário, cresce a pressão para que reguladores atuem de forma mais firme contra abusos e manipulações, reconhecendo que a autorregulação do mercado dificilmente será suficiente.
No fim, a chamada “cultura de cassino” das previsões dificilmente desaparecerá. O desafio será encontrar um equilíbrio entre inovação e proteção, combinando a crítica saudável às elites tecnocráticas com a consciência de que nem sempre a sabedoria coletiva é infalível. Em tempos de incerteza, mecanismos de controle e contrapeso seguem sendo a alternativa menos arriscada.



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