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Mercados de previsão movimentam bilhões, ganham espaço na mídia e entram no radar de reguladores europeus

Em 2025, os mercados de previsão consolidaram-se como uma ferramenta relevante para especular e antecipar acontecimentos do mundo real, ultrapassando o universo financeiro e influenciando diretamente a forma como notícias são produzidas e consumidas. Plataformas como Polymarket e Kalshi somaram, juntas, mais de US$ 37 bilhões em volume de apostas ao longo do ano, segundo dados do 2026 Digital Assets Outlook Report.

Esses mercados funcionam como uma espécie de bolsa de eventos futuros. Em vez de responder a pesquisas tradicionais, os usuários apostam em resultados possíveis e o preço dessas apostas reflete, em tempo real, o que o coletivo considera mais provável. Para defensores do modelo, esse mecanismo capta o “pensamento agregado” com mais precisão do que sondagens convencionais, justamente por envolver dinheiro real e ajustes contínuos de preço.

O fluxo expressivo de capital acelerou a valorização dessas plataformas. A Kalshi fechou recentemente uma rodada de financiamento Série E de US$ 1 bilhão, alcançando uma avaliação de US$ 11 bilhões. Já a Polymarket atingiu um marco em outubro, quando recebeu um investimento estratégico de até US$ 2 bilhões da empresa controladora da Bolsa de Valores de Nova Iorque, passando a ser avaliada em US$ 8 bilhões. O acordo também transformou a investidora na distribuidora global dos dados da Polymarket para investidores institucionais.

O interesse institucional cresce na mesma proporção. Executivos do mercado financeiro passaram a classificar os mercados de previsão como instrumentos legítimos de especulação e agregação de informação, capazes de atender à demanda de clientes por leituras rápidas e probabilísticas sobre eventos complexos.

Esse avanço ganhou ainda mais força após eleições importantes, como o pleito presidencial dos Estados Unidos em 2024 e as eleições antecipadas da Alemanha em 2025. Nesses episódios, as plataformas funcionaram como placares em tempo real, oferecendo projeções que rivalizaram — e em alguns casos superaram — a precisão das pesquisas eleitorais tradicionais. O impacto foi imediato na mídia: grandes emissoras passaram a integrar dados desses mercados em transmissões ao vivo e análises editoriais, atribuindo-lhes peso semelhante ao das sondagens clássicas.

Apesar da expansão, o modelo enfrenta críticas severas. Especialistas alertam para a “hipermercantilização” de eventos humanos, com a transformação de praticamente qualquer aspecto da vida social em um ativo negociável. Segundo os críticos, essa lógica incentiva o jogo excessivo, abre brechas para uso de informação privilegiada e cria incentivos para manipulação direta dos resultados.

Casos recentes reforçaram essas preocupações. Um operador de destaque obteve ganhos milionários em apostas relacionadas a tendências de buscas na internet, levantando suspeitas de acesso antecipado a dados sensíveis. Em outro episódio, apostas sobre declarações de um executivo durante uma teleconferência de resultados foram drasticamente influenciadas por sua própria conduta ao mencionar, de forma deliberada, termos que estavam sendo negociados no mercado de previsão. Para reguladores, situações como essas ilustram como a neutralidade preditiva pode ser facilmente comprometida.

Na União Europeia, a reação regulatória ganhou força a partir do fim de 2024. Autoridades nacionais de jogos passaram a classificar algumas dessas plataformas como operações de apostas não licenciadas, resultando em bloqueios e proibições em diversos países. Em outros Estados-membros, no entanto, os serviços continuam acessíveis, evidenciando um cenário fragmentado e sem harmonização regulatória.

O desafio tende a aumentar em 2026, com a aplicação plena do regulamento europeu sobre Mercados de Ativos Criptográficos. Como grande parte das plataformas de previsão utiliza tecnologia blockchain, elas poderão ser enquadradas em regras mais rígidas de combate ao abuso de mercado, exigindo licenças específicas para operar.

Com eventos globais passando a ser precificados em tempo real, a União Europeia se vê diante de uma decisão estratégica: integrar esses mercados a um arcabouço regulatório claro ou optar por restrições mais amplas. O rumo escolhido deverá definir se o bloco fará parte dessa nova era de previsões financeiras ou se ficará à margem de um setor que cresce em velocidade acelerada.

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