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Aposta milionária no Polymarket reacende debate sobre uso de informação privilegiada em mercados de previsão

Usuário lucra mais de US$ 400 mil ao prever queda de Nicolás Maduro, e caso expõe lacunas regulatórias do setor

Um apostador obteve lucro superior a US$ 400 mil na plataforma Polymarket após prever corretamente a saída de Nicolás Maduro da presidência da Venezuela. A aposta foi realizada por meio de uma conta criada poucas horas antes da captura do líder venezuelano, ocorrida no primeiro fim de semana de janeiro de 2026, fato que levantou suspeitas sobre possível uso de informações privilegiadas em mercados de previsão.

O Polymarket funciona como um híbrido entre bolsa de apostas e mercado financeiro, no qual usuários investem em diferentes cenários ligados a eventos reais. Cada resultado possível recebe um “preço”, que representa a probabilidade atribuída coletivamente pelos participantes. No caso específico, o apostador investiu inicialmente cerca de US$ 32.500 antes da ação que resultou na captura de Maduro por forças americanas. Com a confirmação do evento, o valor do contrato disparou, gerando um lucro superior a US$ 400 mil.

A controvérsia surge quando há indícios de que esse tipo de acerto não decorre apenas de análise ou leitura de cenário, mas de acesso antecipado a informações sensíveis. No mercado financeiro tradicional, o uso de informação privilegiada configura crime. Já nos mercados de previsão, a regulamentação ainda apresenta lacunas relevantes, especialmente quando os eventos apostados envolvem decisões políticas ou operações de Estado.

O episódio não é isolado. Em dezembro, outro usuário chamou atenção ao lucrar aproximadamente US$ 1 milhão ao acertar 22 dos 23 termos mais buscados do Google no ano, desempenho que também gerou questionamentos sobre possível acesso prévio a dados internos. Esses casos têm ampliado o debate sobre os limites entre análise qualificada e abuso de informação.

A principal diferença regulatória está no modelo de fiscalização. Nos Estados Unidos, o mercado de ações é supervisionado pela Securities and Exchange Commission, que possui vasta jurisprudência sobre insider trading. Já os mercados de previsão estão sob responsabilidade da Commodity Futures Trading Commission, órgão historicamente mais flexível e com menor estrutura voltada a esse tipo de investigação.

Após a crise financeira de 2008, a CFTC criou uma regra inspirada nas leis contra uso de informação privilegiada, mas sua aplicação tem sido limitada. O desafio conceitual permanece: definir o que caracteriza informação privilegiada quando as apostas envolvem eventos do mundo real, muitas vezes baseados em expectativas políticas, estratégicas ou institucionais.

As plataformas adotam posturas distintas diante do problema. A Kalshi, fundada pela brasileira Luana Lara e autorizada a operar nos EUA, proíbe explicitamente o uso de informações internas. O Polymarket, que foi banido do mercado americano em 2022 e busca retornar, não estabelece critérios claros para diferenciar conhecimento legítimo de abuso de informação. Já o Manifold chega a incentivar apostas baseadas em conhecimento interno, embora sem envolver dinheiro real.

A fiscalização enfrenta obstáculos práticos. Identificar apostadores, rastrear a origem das informações e comprovar violações de confidencialidade exige recursos e ferramentas que a CFTC raramente possui. Além disso, existe um paradoxo estrutural: os mercados de previsão funcionam melhor quando pessoas bem informadas participam, mas se esse conhecimento for excessivamente restrito, a linha entre eficiência do mercado e ilegalidade se torna difusa.

O tema também repercutiu entre representantes da indústria de jogos. O presidente da Indian Gaming Association, David Bean, classificou o episódio como “um escândalo” durante um webinar da entidade. Ele sugeriu que o apostador poderia ter conexões com a Casa Branca ou com a administração de Donald Trump, questionando a legalidade de apostas feitas com informações sensíveis oriundas do governo.

Bean também criticou a atuação da CFTC e afirmou que a associação tem pressionado o Congresso americano e buscado ações judiciais para conter mercados de previsão ligados a apostas esportivas, considerados por ele uma ameaça à soberania tribal. Outro ponto citado foi a insatisfação de apostadores que não receberam pagamentos ao apostar em uma suposta invasão da Venezuela, após o Polymarket classificar o evento como “sequestro” e não invasão, decisão que gerou acusações de arbitrariedade.

Até o momento, não há definição clara sobre como as autoridades regulatórias irão responder a esses episódios nem se novas regras serão implementadas para lidar com o uso de informação privilegiada em mercados de previsão. O crescimento de plataformas como Polymarket e Kalshi segue ampliando o debate sobre a legitimidade do modelo e sobre onde termina a análise especializada e começa o abuso de informação sensível.

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