ANJL contesta estudo que aponta apostas como principal causa de endividamento no Brasil
Entidade questiona metodologia de pesquisa e afirma que dados não comprovam impacto direto das apostas nas dívidas das famílias
A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) divulgou, nesta quinta-feira, um posicionamento crítico sobre um estudo que atribui às apostas online papel central no aumento do endividamento das famílias brasileiras entre 2011 e 2025. A pesquisa foi elaborada pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar) em parceria com a FIA Business School.
Segundo a entidade, o levantamento apresenta inconsistências metodológicas e não se sustenta com base nas estatísticas oficiais disponíveis sobre crédito e consumo no país. A ANJL afirma que a estrutura do estudo compromete a validade das conclusões ao não estabelecer uma relação concreta entre apostas e impacto financeiro real no orçamento das famílias.
O estudo analisado utiliza quatro variáveis principais: relação entre crédito e renda, taxa de juros para pessoa física, tempo decorrido desde 2011 e um indicador de “interesse por apostas”, baseado em comportamento nas redes sociais. Para a associação, esse último ponto representa uma fragilidade central.
De acordo com a ANJL, o indicador mede apenas a atenção ao tema no ambiente digital, sem mensurar quanto as famílias efetivamente gastam com apostas. Dessa forma, a pesquisa estabelece uma associação entre visibilidade e endividamento, sem comprovar causalidade.
A entidade argumenta que períodos de maior debate público — como discussões políticas e investigações sobre o setor — podem inflar esse indicador, sem qualquer relação direta com aumento de gastos. Isso, segundo a análise, gera distorções relevantes na interpretação dos dados.
Outro ponto levantado é a ausência de informações sobre desembolsos reais com apostas em proporção à renda familiar. Para a ANJL, esse tipo de dado seria essencial para qualquer análise que pretenda estabelecer relação de causa e efeito.
A associação também destaca que o próprio contexto brasileiro dificulta medições precisas, já que por muitos anos o mercado operou sem regulamentação completa, limitando a disponibilidade de dados consolidados.
Além disso, a entidade aponta uma contradição conceitual no estudo. Juros e acesso ao crédito são, por definição, os principais fatores que geram endividamento. Já os gastos, incluindo apostas, têm impacto indireto — tornando-se dívida apenas quando associados ao uso de crédito, aspecto que não foi considerado na análise.
Mesmo assim, o estudo conclui que as apostas teriam impacto superior aos fatores tradicionais, o que, segundo a ANJL, contraria princípios básicos da economia.
A entidade também cita dados do Ministério da Fazenda que indicam um cenário diferente. De acordo com essas informações, mais da metade dos brasileiros que apostam gasta até R$ 50 na atividade, enquanto apenas uma pequena parcela apresenta gastos elevados. Esse perfil, segundo a ANJL, não sustenta a tese de que as apostas sejam o principal motor do endividamento no país.
Outro ponto questionado é a série de dados sobre juros utilizada na pesquisa. A associação afirma que o comportamento apresentado não reflete os ciclos reais da política monetária brasileira, que incluem períodos de queda, alta e novas reduções ao longo dos anos analisados.
Essa inconsistência levanta dúvidas sobre a confiabilidade das conclusões, já que as taxas de juros são um dos principais determinantes do endividamento. A própria pesquisa reconhece a relação direta entre crédito e juros, mas, segundo a ANJL, trata esses fatores como independentes ao compará-los com o impacto das apostas.
Para a entidade, análises sobre o tema precisam se basear em dados concretos de consumo e respeitar as relações causais estabelecidas pela teoria econômica. Sem isso, qualquer conclusão sobre o papel das apostas no endividamento tende a ser apenas especulativa.
Ao final, o presidente da ANJL, Plínio Lemos Jorge, afirmou que o estudo levanta uma hipótese relevante, mas não apresenta evidências robustas para sustentar que as apostas online tenham se tornado o principal fator de endividamento das famílias brasileiras.



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