Apostas esportivas reduzem presença como patrocinadoras master na Série A do Brasileirão
Empresas do setor redistribuem investimentos em meio à regulamentação, aumento de impostos e novas estratégias de marketing
As empresas de apostas esportivas reduziram a presença como patrocinadoras principais nos uniformes dos clubes da Série A do Campeonato Brasileiro em 2026. Atualmente, treze equipes da elite do futebol nacional contam com casas de apostas ocupando o espaço master nas camisas, número inferior ao registrado no ano passado.
Em 2025, dezoito dos vinte clubes que disputavam a primeira divisão exibiam marcas do setor de apostas como patrocinadoras principais. A redução observada nesta temporada reflete uma mudança estratégica das empresas, que passaram a redistribuir seus investimentos para outras frentes de marketing e visibilidade.
De acordo com informações do mercado, parte significativa dos recursos destinados anteriormente aos patrocínios master foi redirecionada para iniciativas como competições regionais, acordos de naming rights de arenas multiuso, contratação de embaixadores de marca e participação em programas televisivos.
A mudança acontece após um período de forte concentração de investimentos no futebol da primeira divisão. Durante o crescimento acelerado do setor de apostas no país, as empresas utilizaram o patrocínio aos grandes clubes como principal estratégia de posicionamento e reconhecimento de marca.
Agora, com a consolidação do mercado e o surgimento de novas oportunidades de exposição, as companhias passaram a diversificar as formas de investimento em publicidade e relacionamento com o público.
Outro fator relevante para essa reconfiguração é o impacto da regulamentação do setor de apostas no Brasil. Embora a atividade tenha sido legalizada em 2018, as regras mais detalhadas para funcionamento e tributação das empresas foram definidas apenas no final de 2023.
Com a regulamentação em vigor, as operadoras passaram a arcar com uma carga tributária maior, o que reduziu parte do orçamento disponível para campanhas publicitárias e patrocínios esportivos.
O presidente do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), André Gelfi, explicou que a nova realidade fiscal influenciou diretamente os investimentos em marketing. Segundo ele, o aumento da tributação diminuiu os recursos disponíveis para patrocínios.
De acordo com Gelfi, uma parcela maior da receita das empresas passou a ser direcionada para o pagamento de impostos, o que naturalmente reduz o montante que pode ser utilizado em ações promocionais. Para o executivo, o mercado passa por um momento de ajuste após o período inicial de expansão acelerada dos contratos de patrocínio.
O ano de 2025 marcou o primeiro ciclo completo em que as novas regras tributárias começaram a produzir efeitos práticos sobre as operações do setor. Naquele momento, o número de patrocínios master nos clubes da Série A atingiu seu pico.
Já em 2026, após as primeiras rodadas do Campeonato Brasileiro, a quantidade de clubes patrocinados diretamente por casas de apostas caiu para treze, evidenciando a mudança no comportamento das empresas.
Apesar da redução na presença nos uniformes da elite do futebol nacional, o mercado de apostas segue movimentando cifras expressivas no Brasil. Segundo dados do Ministério da Fazenda, o setor registrou no último ano receita bruta de jogos de aproximadamente R$ 36,9 bilhões.
Esse indicador, conhecido como GGR (Gross Gaming Revenue), representa o lucro bruto das operadoras após o pagamento dos prêmios aos apostadores. Como 2025 foi o primeiro ano de aplicação efetiva da tributação, ainda não há base comparativa direta com anos anteriores.
Os números também indicam o tamanho da base de usuários do setor. Cerca de 25,2 milhões de pessoas registraram seus CPFs em plataformas de apostas esportivas no país. Ao todo, as diferentes operadoras somaram aproximadamente 100,7 milhões de contas ativas.
Com esse volume de movimentação financeira, o governo federal arrecadou aproximadamente R$ 4,5 bilhões em tributos, valor equivalente a cerca de 12% do GGR registrado no período.
Mesmo com a expansão do mercado regulado, estimativas indicam que o setor não legalizado possui dimensão semelhante à das empresas autorizadas a operar no país.
Atualmente, cerca de 80 casas de apostas possuem autorização para atuar no Brasil. Em comparação internacional, o Reino Unido possui 253 empresas licenciadas, enquanto a Espanha registra 77 operadores.
Ainda assim, o mercado brasileiro enfrenta desafios de rentabilidade. Estimativas do setor indicam que aproximadamente 80% das empresas de apostas ainda operam com prejuízo.
A carga tributária também tende a aumentar nos próximos anos. O imposto direto sobre as operadoras deve subir de 12% para 15% do GGR em 2028. Além disso, há propostas em discussão no Congresso Nacional que podem elevar essa taxa para até 18%.
Quando considerados outros tributos, como Imposto de Renda, Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), PIS, Cofins e ISS, a carga total pode ultrapassar 25% do GGR.
Esse cenário reforça o processo de consolidação do setor no país. O advogado Pietro Cardia Lorenzoni, diretor jurídico da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), avalia que o mercado brasileiro pode não sustentar um número tão elevado de empresas competitivas.
Segundo ele, a operação dentro de um ambiente regulado traz novos desafios financeiros e operacionais, o que tende a reduzir gradualmente o número de companhias atuantes.
Mesmo com as mudanças no modelo de investimento, executivos do setor destacam que o futebol continua sendo um ativo estratégico para a construção de marca das empresas de apostas.
O executivo-chefe da Superbet, Alexandre Fonseca, afirma que as parcerias com clubes ainda têm papel importante na estratégia de comunicação das empresas. No entanto, ele observa que o futebol também se tornou um espaço cada vez mais caro para patrocínios.
Fonseca também aponta que parte da mudança nas decisões de investimento pode estar relacionada à Copa do Mundo de 2026, que será disputada nos Estados Unidos, no México e no Canadá. Segundo ele, muitas marcas precisam escolher entre investir fortemente na visibilidade do torneio ou direcionar recursos para contratos de patrocínio com clubes.
Outros representantes do setor reforçam que a redução do número de patrocínios na Série A não significa necessariamente diminuição do investimento total no esporte.
Diego Bittencourt, diretor de marketing da Start Bet, explica que muitas empresas estão optando por distribuir o orçamento de forma mais estratégica. Em alguns casos, o valor necessário para patrocinar um clube da primeira divisão pode ser direcionado para naming rights de competições regionais, contratação de embaixadores ou parcerias com programas de televisão.
Segundo ele, essas alternativas podem oferecer maior frequência de exposição da marca e permitir uma presença mais constante no cotidiano do público.
Dessa forma, o setor de apostas esportivas entra em uma nova fase no Brasil, marcada por ajustes estratégicos, maior regulação e um processo gradual de consolidação entre as empresas que disputam espaço em um dos maiores mercados emergentes do mundo.



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