Apostas online passam a pesar no acesso ao Minha Casa, Minha Vida, aponta setor imobiliário
A participação crescente de brasileiros em apostas online tem se tornado um novo fator de dificuldade para famílias que tentam financiar a casa própria pelo programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV). O impacto é mais perceptível entre os consumidores da chamada faixa 2 do programa, composta por pessoas com renda mensal de até R$ 4.700.
O alerta foi feito pela presidente da BRZ, Eduarda Tolentino, em entrevista concedida neste sábado (27). Segundo ela, o comprometimento da renda com apostas tem afetado diretamente a capacidade de financiamento e, principalmente, a manutenção dos pagamentos em dia.
De acordo com a executiva, o problema aparece com mais frequência justamente entre os compradores que dependem das condições facilitadas do programa habitacional. “Com certeza compromete a capacidade de financiamento e de manter o financiamento em dia. Isso a gente tem percebido mais no faixa 2, do cliente com a renda de até R$ 4.700”, afirmou.
A exigência rigorosa de análise de crédito por parte da Caixa Economica Federal, principal agente financeiro do MCMV, agrava o cenário. Para ter o financiamento aprovado, o candidato não pode apresentar qualquer pendência financeira, mesmo que de valor mínimo.
“É uma dor. Para financiar pela Caixa, não pode haver sequer R$ 1 de pendência. Qualquer restrição já torna o comprador inelegível”, reforçou Tolentino.
O avanço das apostas online ocorre em paralelo a um ambiente econômico mais pressionado, marcado por inflação elevada e aumento do custo de vida. Na avaliação da presidente da BRZ, esse conjunto de fatores acaba “estrangulando” a capacidade de pagamento das famílias, mesmo com o programa registrando recordes de demanda.
Ela também destacou que o fenômeno das bets adiciona um grau extra de complexidade ao mercado imobiliário, especialmente quando combinado à presença maciça de patrocínios esportivos e ao alto volume financeiro movimentado pelo setor.
Apesar disso, especialistas e representantes do mercado de apostas contestam a narrativa de ausência de regras. O setor de apostas esportivas e jogos online passou por um processo de regulamentação recente no Brasil, com exigências legais, fiscais e diretrizes de jogo responsável.
Nesse contexto, críticas surgem quanto à tentativa de atribuir às plataformas de apostas a responsabilidade por dificuldades estruturais de outros segmentos da economia. Para analistas do setor regulado, a generalização ignora fatores como inflação, endividamento histórico das famílias e limitações do próprio sistema de crédito, além de desconsiderar o atual arcabouço regulatório em vigor.



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