Audiência pública no RS debate impactos das apostas online na economia, saúde mental e proposta de loteria estadual
Parlamentares e representantes de entidades apontam aumento do endividamento, riscos psicológicos e questionam participação do Estado no setor
Uma audiência pública promovida pela Comissão de Economia, Trabalho, Desenvolvimento Sustentável e Turismo da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul discutiu nesta quarta-feira os impactos das apostas online na economia e na saúde da população gaúcha, além da proposta do governo estadual de implementar uma nova loteria. O debate foi conduzido pelo deputado Tiago Simon (MDB), responsável pela solicitação do encontro.
Na abertura, o parlamentar afirmou que o crescimento das apostas esportivas tem gerado efeitos negativos na renda das famílias e no sistema educacional do estado. Segundo ele, o volume de recursos movimentados pelo setor representa uma parcela relevante da economia nacional e estaria sendo retirado do consumo em pequenos negócios e instituições de ensino.
Tiago Simon também destacou preocupação com o aumento de casos associados à ludopatia, apontando relatos de depressão, superendividamento e situações extremas enfrentadas por apostadores. O deputado afirmou ainda que há episódios em que o setor foi relacionado a esquemas de lavagem de dinheiro.
Sobre o projeto do governo estadual que prevê a retomada da loteria gaúcha, o parlamentar indicou que há resistência entre deputados. Na avaliação dele, a prioridade do poder público deveria ser a proteção social diante dos riscos associados às apostas digitais. Simon informou que um projeto de sua autoria, que propõe restrições à publicidade de plataformas de apostas esportivas, pode ser votado pelo plenário na próxima semana.
Representantes do setor empresarial também apresentaram críticas durante o encontro. O presidente da Federação das Associações Gaúchas do Varejo, Vilson Noer, afirmou que os impactos das apostas ultrapassam a esfera econômica e atingem questões comportamentais e de saúde pública. Segundo ele, dados do setor indicam altos índices de inadimplência e endividamento entre apostadores, além da saída de recursos do país devido à presença de empresas estrangeiras no segmento.
No campo da saúde mental, a presidente do Conselho Regional de Psicologia, Jeniffer de Mello, afirmou que as apostas digitais são estruturadas para estimular o engajamento contínuo dos usuários. Ela relatou aumento no diagnóstico de sofrimento psicológico, conflitos familiares e comportamentos de risco, especialmente entre jovens e menores de idade, considerados mais vulneráveis à publicidade e à influência digital.
O presidente da Associação Gaúcha de Supermercados, Lindonor Peruzzo Junior, destacou reflexos no consumo de produtos essenciais. Segundo ele, o setor observou retração a partir de maio de 2025 após um período de crescimento, o que pode estar relacionado ao aumento do endividamento das famílias.
O diretor executivo do Procon de Porto Alegre, Wambert Di Lorenzo, explicou que o órgão tem atuado no apoio a consumidores superendividados, promovendo audiências de renegociação de dívidas consideradas legais. Ele ressaltou que, embora as apostas estejam na origem de muitos casos de insolvência, os débitos ligados diretamente a essa atividade não entram nos processos formais de renegociação.
Também participaram da audiência representantes da Defensoria Pública, do Ministério Público, de entidades médicas, comerciais e de defesa do consumidor, que apresentaram diferentes perspectivas sobre os efeitos econômicos e sociais das apostas online.
O debate ocorre em meio à análise do projeto do Executivo estadual para recriação da loteria pública, extinta em 2004. O governo ainda avalia ajustes na proposta antes de encaminhá-la ao Legislativo, enquanto o tema segue mobilizando setores políticos, empresariais e da sociedade civil no Rio Grande do Sul.



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