CVM autoriza primeiros derivativos preditivos da B3 e Brasil avança no mercado de previsões
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) autorizou os primeiros produtos do mercado preditivo brasileiro, que serão lançados pela B3 nos próximos meses. A informação foi divulgada nesta quarta-feira pelo jornal Valor Econômico e marca a entrada formal do Brasil em um segmento que combina características de derivativos financeiros e mercados de previsão.
Inicialmente, os contratos serão restritos a investidores profissionais, com patrimônio financeiro superior a R$ 10 milhões. A expectativa da B3 é disponibilizar os primeiros derivativos ainda no primeiro trimestre de 2026, ou no máximo até o início do segundo trimestre.
Os produtos inaugurais incluirão opções binárias atreladas ao dólar, ao Ibovespa e ao bitcoin. O investidor poderá escolher entre dois desfechos possíveis — “sim” ou “não” — para cenários específicos, como o dólar abaixo de R$ 5 em determinada data ou o Ibovespa acima de 200 mil pontos em maio.
Estrutura dos contratos e público-alvo
O funcionamento dos contratos segue lógica simples: dois investidores assumem posições opostas sobre o mesmo evento. Se um aplica R$ 40 na tese de que o Ibovespa atingirá 200 mil pontos e outro aposta R$ 60 no cenário contrário, o vencedor recebe o montante total de R$ 100.
Gilson Finkelsztain, presidente da B3, afirmou que o universo de derivativos vem se aproximando do conceito de mercado preditivo. Já Luiz Masagão, vice-presidente de produtos e clientes da bolsa, destacou que há público interessado na simplicidade desse tipo de instrumento, que pode funcionar como porta de entrada para produtos mais sofisticados.
A B3 já opera instrumentos com lógica semelhante, como as opções relacionadas às decisões do Copom sobre a taxa Selic, atualmente negociadas principalmente por investidores institucionais.
Zona cinzenta regulatória
Embora a CVM tenha autorizado os novos contratos com base na regulamentação vigente, o enquadramento mais amplo do mercado preditivo ainda gera debate. A principal dúvida é se determinados produtos se caracterizam como derivativos financeiros — sob supervisão da CVM — ou como apostas, cuja regulação compete ao Ministério da Fazenda, por meio da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA).
Além disso, há discussões sobre eventual competência do Banco Central do Brasil em aspectos ligados a pagamentos e liquidação financeira.
Em nota oficial, a CVM informou que acompanha a evolução dessas iniciativas dentro de suas atribuições legais e que os novos contratos foram analisados conforme a regulamentação atual.
Especialistas avaliam que o avanço desses produtos exige cautela. Claudia Yoshinaga, da FGV EAESP, aponta que a introdução de inovações financeiras, como ocorreu com criptomoedas e apostas esportivas, demanda reflexão regulatória prévia. Já advogados de mercado alertam para o risco de vácuo regulatório, o que poderia estimular operações à margem da supervisão oficial.
Mercado global e players internacionais
Segundo estimativas da consultoria Eilers & Krejcik, o mercado global de previsões pode atingir volume anual de US$ 1 trilhão. Nos Estados Unidos, plataformas como Polymarket e Kalshi lideram o segmento. A Kalshi opera sob supervisão da CFTC, enquanto a Polymarket desenvolveu modelo baseado em blockchain fora do sistema financeiro tradicional.
A ICE, controladora da Bolsa de Nova York, já investiu na Polymarket, evidenciando o interesse institucional global nesse formato de mercado. Nenhuma dessas plataformas, porém, está oficialmente disponível para investidores brasileiros.
Expansão local e novos entrantes
Apesar de o Valor destacar que o Brasil se prepara para ingressar no mercado de previsões, iniciativas como Prévias e Palpitada já operam no país, ainda que em ambiente de indefinição regulatória. Empresas de criptomoedas e apostas também desenvolvem soluções com pagamentos via Pix, aguardando maior clareza normativa.
Um novo player brasileiro deve iniciar operações em março: o Futuriza. A plataforma atuará em dois modelos. No formato B2C, permitirá que usuários participem de mercados sobre política, economia, esportes e entretenimento. No modelo B2B, oferecerá soluções para empresas e instituições interessadas em captar inteligência coletiva para decisões estratégicas.
Contexto de expansão das apostas
A familiaridade do público brasileiro com previsões e apostas cresceu significativamente nos últimos anos. Apenas no primeiro semestre de 2025, cerca de 17,7 milhões de brasileiros realizaram apostas esportivas, segundo dados do Ministério da Fazenda.
Com a autorização da CVM à B3, o país dá um passo formal em direção à institucionalização dos mercados preditivos. O desafio agora será harmonizar inovação financeira com segurança jurídica, coordenação regulatória e proteção ao investidor em um ambiente que combina elementos de mercado de capitais e apostas.



Publicar comentário