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Estudo aponta que apostadores anônimos rivalizam com economistas na previsão de indicadores nos EUA

Pesquisa do NBER mostra que mercados como Kalshi e Polymarket alcançam precisão semelhante à de especialistas de Wall Street

Milhares de apostadores anônimos em plataformas de mercados de previsão, como Kalshi e Polymarket, estão demonstrando desempenho igual ou, em alguns casos, superior ao de economistas profissionais na previsão de indicadores econômicos nos Estados Unidos.

Um estudo publicado em janeiro pelo National Bureau of Economic Research (NBER) analisou cinco anos de dados e concluiu que esses apostadores amadores rivalizam com especialistas de grandes instituições financeiras na previsão de taxas de inflação e outros indicadores macroeconômicos.

O fenômeno ganhou destaque após a divulgação do relatório oficial de empregos na quarta-feira, 10 de fevereiro. Economistas de grandes bancos estimaram a criação de cerca de 68 mil vagas no mês anterior, enquanto participantes da Kalshi projetaram aproximadamente 54 mil novos postos.

Segundo o The New York Times, o dado oficial mostrou que a economia norte-americana gerou 130 mil empregos no início de 2026. O resultado indicou que tanto economistas quanto apostadores erraram a projeção por margens semelhantes, reforçando a tese de que os mercados de previsão podem competir em precisão com análises tradicionais.

A eficácia desses mercados está associada ao conceito de agregação de informações dispersas. Jonathan Wright, professor da Johns Hopkins University e coautor do estudo, destacou que reunir opiniões de um grande grupo pode produzir previsões notavelmente precisas.

Diferentemente de economistas de Wall Street, que precisam divulgar estimativas regularmente, apostadores individuais podem escolher quando participar. Isso significa que tendem a entrar no mercado apenas quando estão confiantes em suas análises, reduzindo o ruído gerado por previsões feitas sob incerteza elevada.

Thomas Simons, da Jefferies, reconheceu a eficácia desses mercados após observar que eles anteciparam corretamente a indicação de Kevin Warsh por Donald Trump para a presidência do Federal Reserve — cenário que contrariava sua própria análise.

Para Theis Jensen, da Yale University, o diferencial dos mercados de previsão está nos incentivos financeiros diretos. Ao arriscar capital próprio, os participantes têm estímulo para revelar suas verdadeiras convicções, em vez de emitir opiniões genéricas.

Atualmente, mais de US$ 60 milhões são negociados diariamente nas plataformas Kalshi e Polymarket em contratos relacionados a temas políticos e econômicos — volume significativamente superior ao registrado pelos primeiros sites de previsão dos anos 2000.

Edward Ridgely, diretor da Stand, empresa que facilita negociações simultâneas entre Kalshi e Polymarket, afirma que muitos usuários utilizam esses contratos como instrumentos de hedge. Um exemplo citado envolve investidores expostos a ações da Nvidia que operam contratos relacionados a tarifas comerciais como forma de proteção.

Os dados também indicam especialização entre os participantes. Traders que apresentam bom desempenho em previsões eleitorais nem sempre replicam resultados em criptomoedas ou geopolítica, sugerindo que conhecimento específico influencia a performance.

Mesmo economistas de grandes bancos acompanham esses mercados. Michael Feroli, do JPMorgan, observa que mercados de previsão oferecem probabilidades quantitativas claras, algo nem sempre obtido em conversas informais com fontes políticas.

Por outro lado, há cautela quanto à adoção institucional desses dados. Tara Sinclair, da George Washington University, alerta que substituir análises humanas por mercados poderia reduzir a diversidade de fontes qualitativas de informação.

Justin Wolfers, da University of Michigan, afirmou ter sugerido ao Federal Reserve considerar esses mercados, mas encontrou resistência. Segundo ele, incorporar tais mecanismos poderia alterar dinâmicas internas de poder e decisão.

Os primeiros mercados de previsão online surgiram no início dos anos 2000, com plataformas como Intrade. Na década de 2010, reguladores americanos classificaram parte dessas operações como jogos de azar ilegais.

A Kalshi obteve autorização para operar legalmente em 2024. Já a Polymarket enfrenta restrições nos Estados Unidos devido a disputas judiciais que limitaram sua atuação em diversos estados.

A pesquisa do NBER concluiu que, ao longo dos cinco anos analisados, os apostadores da Kalshi foram tão precisos quanto especialistas altamente treinados na previsão de determinados indicadores econômicos.

Para Warren Hatch, CEO da Good Judgment, mesmo com o avanço da inteligência artificial, haverá espaço para previsores humanos. Segundo ele, quando os dados são escassos e o ambiente é altamente dinâmico, sistemas automatizados tendem a operar de forma retrospectiva, enquanto humanos conseguem interpretar mudanças estruturais em tempo real.

Ainda não há indicação de que instituições como o Federal Reserve incorporarão oficialmente dados de mercados de previsão em seus modelos decisórios. No entanto, o crescimento do volume negociado e o desempenho consistente desses apostadores sugerem que a fronteira entre análise profissional e inteligência coletiva está cada vez mais tênue no campo da economia.

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