Kalshi mira Brasil e planeja expansão internacional após valuation de US$ 11 bilhões
Fundadora brasileira diz que empresa de mercados preditivos avalia entrada no país, ainda em fase inicial, e aposta em crescimento global regulado
A Kalshi, empresa norte-americana de mercados preditivos, avalia iniciar operações no Brasil como parte de uma estratégia de expansão internacional. Fundada pela brasileira Luana Lopes Lara, de 29 anos, a companhia foi recentemente avaliada em US$ 11 bilhões em sua última rodada de captação e vê o país como um dos destinos prioritários, embora os planos ainda estejam em estágio inicial.
Em entrevista ao Valor, Luana explicou que a ideia da Kalshi surgiu a partir de sua experiência no mercado financeiro. Antes de fundar a empresa, ela trabalhou na Bridgewater e na Citadel, enquanto o cofundador Tarek Mansour passou por instituições como Goldman Sachs e Citadel. Segundo a executiva, os mercados tradicionais negociam expectativas futuras de forma indireta, por meio de ativos que funcionam como proxies, o que nem sempre reflete com precisão o evento em si.
A proposta da Kalshi foi criar uma “exchange” em que investidores pudessem comprar e vender diretamente contratos vinculados ao resultado de eventos específicos, eliminando estruturas indiretas. Para isso, a empresa optou desde o início por um caminho regulado, mesmo diante de uma longa e complexa batalha com autoridades norte-americanas. Foram cerca de três anos até o lançamento da plataforma, seguidos por novos embates regulatórios, especialmente para viabilizar mercados ligados a eleições.
Atualmente, uma parcela relevante da receita da Kalshi vem de previsões relacionadas a esportes, o que levanta questionamentos sobre a diferença entre mercados preditivos e apostas tradicionais. Luana argumenta que o foco está em hedge e descoberta de preços. Segundo ela, setores como esporte e entretenimento possuem riscos econômicos significativos — como impacto em hotéis, turismo e empresas ligadas a eventos —, mas historicamente não dispõem de instrumentos sofisticados de proteção, ao contrário de áreas como o agronegócio.
Além do hedge, a fundadora destaca o papel informacional dos preços. Para ela, a probabilidade atribuída pelo mercado a um determinado evento carrega informações relevantes que afetam decisões econômicas mais amplas. Essa lógica, segundo Luana, diferencia mercados preditivos regulados de jogos de azar, nos quais não há mecanismos de proteção de risco, trading estruturado ou geração de informação econômica.
Questionada sobre riscos de uso de informação privilegiada, a executiva afirmou que a Kalshi adota regras semelhantes às do mercado de capitais. Como plataforma regulada, a empresa conhece a identidade de todos os participantes, mantém uma área dedicada de compliance e tem a obrigação de investigar qualquer indício de manipulação. Segundo ela, casos conhecidos de insider trading em mercados preditivos ocorreram em plataformas offshore, sem exigências de identificação de clientes, o que não se aplica à Kalshi. A empresa afirma não ter registros desse tipo de irregularidade e reporta todas as negociações às autoridades dos EUA.
Com a recente captação de US$ 1 bilhão, a Kalshi definiu como prioridade acelerar sua expansão internacional. O Brasil ocupa posição central nesse plano. Luana afirmou que não há nada formalizado, mas que a expectativa é anunciar novidades no início de 2026. A executiva avalia que o país não possui hoje um modelo semelhante ao da Kalshi, ficando dividido entre casas de apostas e mercados tradicionais de derivativos.
No uso institucional, a empresa já conta com grandes provedores de liquidez, como fundos especializados em market making, além de fundos, family offices e empresas que utilizam os contratos como instrumento de hedge. Há também operações de grande porte negociadas via “request for quote”, prática comum no mercado institucional. Entre exemplos públicos, Luana citou empresas que utilizam os mercados da Kalshi para se proteger contra riscos operacionais e macroeconômicos.
Sobre uma eventual abertura de capital, a fundadora afirmou que o tema é relevante, mas não está no horizonte imediato. O foco, segundo ela, segue na expansão, no lançamento de novos produtos e no aprimoramento da plataforma, incluindo estruturas mais sofisticadas, como margem e alavancagem, voltadas a um perfil de trading institucional.
A Kalshi também ampliou seu conselho estratégico, incluindo Donald Trump Jr.. Luana explicou que a decisão está ligada à necessidade de navegar no ambiente regulatório de Washington, especialmente por atuar com mercados ligados a política e eleições. Segundo ela, a empresa mantém diálogo com representantes de diferentes espectros políticos e vê esse apoio como parte natural de um negócio altamente regulado.
Para a fundadora, o desafio agora é replicar, em outros países, o modelo que vem sendo construído nos Estados Unidos, mantendo o foco em regulação, transparência e uso econômico dos mercados preditivos.



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