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Médica formada pela USP é condenada por golpe de R$ 192 mil em lotérica de São Paulo

Justiça reconhece fraude em apostas e impõe três anos de prisão em regime semiaberto

A 32ª Vara Criminal do Foro Central Criminal da Barra Funda condenou a médica Alicia Dudy Muller Veiga a três anos de reclusão em regime semiaberto por aplicar um golpe de R$ 192,9 mil em uma casa lotérica da zona sul de São Paulo. A decisão foi proferida nesta quarta-feira pela juíza Adriana Costa.

Além da pena de prisão, a sentença também determinou o pagamento de multa equivalente a um salário mínimo. A médica, formada pela Universidade de São Paulo (USP), já havia sido condenada anteriormente por outro caso envolvendo desvio de recursos da comissão de formatura de sua turma de Medicina.

Segundo o processo, o crime ocorreu quando Alicia tentou realizar apostas que somavam R$ 891,5 mil, mas efetuou pagamento de apenas R$ 891,53. A diferença foi interpretada pela Justiça como tentativa de induzir funcionários da lotérica ao erro para validar apostas sem a devida cobertura financeira.

Essa é a segunda condenação da médica. Em julho de 2024, ela havia sido sentenciada a cinco anos de reclusão em regime semiaberto por desviar quase R$ 1 milhão do fundo destinado à festa de formatura da turma de Medicina. A defesa recorreu dessa decisão, que ainda aguarda novo julgamento.

A tentativa de golpe na lotérica aconteceu em julho de 2022. De acordo com a investigação, Alicia solicitou diversas apostas e informou que realizaria transferências via Pix para pagar os valores. Ela era cliente habitual da lotérica Oriundi e mantinha uma relação de confiança com a gerente do estabelecimento.

A situação despertou suspeita quando o valor das apostas já havia alcançado cerca de R$ 193,8 mil. Ao verificar o sistema, a gerente percebeu que havia apenas um agendamento de transferência e não um pagamento efetivamente realizado.

Quando foi questionada pelos funcionários, a médica apresentou um extrato com movimentação de R$ 891,50 e deixou o estabelecimento.

Segundo o Ministério Público, Alicia saiu da lotérica levando cinco apostas de aproximadamente R$ 38,7 mil cada. A transferência de R$ 891,53 teria sido feita para simular que o valor correspondia aos R$ 891,5 mil informados inicialmente, estratégia que buscaria induzir os funcionários ao erro.

Para o promotor Vagner Queiroz, a ação configurou uma conduta fraudulenta. Na sentença, a juíza Adriana Costa afirmou que ficou evidenciado o dolo da ré ao tentar enganar a gerente da lotérica.

A magistrada também rejeitou a alegação da defesa de que a acusada teria agido de forma impulsiva devido a problemas psicológicos e ao vício em jogos. Um laudo pericial apontou que Alicia possuía plena consciência de seus atos, o que levou a Justiça a considerá-la plenamente imputável.

As investigações apontam que a médica já vinha realizando apostas de alto valor antes do episódio. Em abril de 2022, quando ainda era estudante, ela chegou a realizar quase R$ 20 mil em apostas na Lotofácil, todas pagas via Pix. Posteriormente, os valores apostados passaram a crescer de forma significativa.

Registros analisados durante o processo indicam que Alicia teria movimentado mais de R$ 572 mil em plataformas digitais de apostas no mesmo período em que ocorreram os fatos investigados.

Paralelamente, a médica também responde por um caso de desvio de recursos da comissão de formatura de sua turma de Medicina da USP. O Ministério Público apresentou oito acusações de estelionato e uma de tentativa de estelionato nesse processo.

A investigação teve início após uma colega registrar boletim de ocorrência relatando irregularidades nas contas da comissão. O desvio teria sido identificado em janeiro de 2026.

Segundo a polícia, parte do dinheiro foi utilizada para despesas pessoais, incluindo a compra de um iPad Pro, aluguel de apartamento por alguns meses e locação de veículo. A polícia também investiga se parte dos recursos desviados foi utilizada para financiar apostas.

Em depoimento, Alicia afirmou que decidiu administrar o dinheiro da formatura por conta própria após considerar que os recursos não estavam sendo bem geridos pela empresa responsável pelo evento. Segundo ela, perdas em aplicações financeiras teriam agravado a situação.

Mensagens recuperadas durante a investigação mostram conversas nas quais a médica demonstrava arrependimento e relatava tentativas de recuperar o dinheiro por meio de apostas.

A defesa, representada pelo advogado Sérgio Giolo, informou que irá recorrer da decisão. Segundo ele, existem recursos pendentes e questionamentos sobre a condução da perícia realizada no processo.

Os advogados sustentam que não houve fraude, argumentando que a lotérica teria permitido apostas de alto valor sem a confirmação imediata dos pagamentos. Para a defesa, a situação representaria uma operação de crédito de alto risco aceita pelo próprio estabelecimento.

A defesa também afirma que o comportamento da médica estaria relacionado a um quadro psiquiátrico grave associado à ludopatia, o vício em jogos. Segundo os advogados, os registros de apostas indicariam um colapso financeiro e mental, e não uma tentativa deliberada de fraude.

O Ministério Público contestou esse argumento e afirmou que a acusada tenta utilizar supostos problemas psicológicos para reduzir a responsabilidade pelos atos.

Aos 28 anos, Alicia mantém registro ativo no Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp). O caso segue em tramitação judicial enquanto a defesa prepara novos recursos contra as decisões já proferidas.

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