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Mercados de previsão e casas de apostas travam disputa bilionária nos EUA

Plataformas de mercados de previsão como Kalshi e Polymarket estão no centro de uma batalha judicial contra gigantes consolidadas das apostas esportivas, como FanDuel, DraftKings e MGM Resorts International. Em jogo está a definição jurídica do que constitui aposta esportiva nos Estados Unidos e quem deve regulá-la — um embate que envolve um mercado estimado em US$ 8 bilhões por ano.

A controvérsia ganhou força após a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, em 2018, que derrubou a proibição federal das apostas esportivas. A partir dali, cada estado passou a ter autonomia para legalizar ou vetar a atividade. Segundo dados publicados pela revista Fortune, 39 estados e o Distrito de Columbia já aprovaram a prática.

Desde então, a expansão acelerada do setor abriu espaço para disputas regulatórias. Pelo menos 20 ações federais foram protocoladas contra plataformas de mercados de previsão em mais de sete estados. Entre os processos mais recentes está uma ação coletiva apresentada na semana passada contra a Polymarket por um usuário em Nova York.

Alertas e ofensiva regulatória

A tensão aumentou no início de fevereiro. No dia 2, a procuradora-geral de Nova York, Letitia James, emitiu um alerta aos consumidores, classificando muitos mercados de previsão como formas de jogo não regulamentado e desencorajando seu uso para apostas relacionadas ao Super Bowl.

A American Gaming Association (AGA) também se posicionou de forma crítica. Em carta enviada ao Congresso, a entidade afirmou que as plataformas de previsão são “indistinguíveis das apostas esportivas legais”. A associação desenvolveu ainda uma calculadora que estima que os estados deixaram de arrecadar mais de US$ 400 milhões em impostos devido às apostas realizadas nesses mercados alternativos.

No centro do debate está a competência regulatória. As plataformas de previsão são supervisionadas pela Commodity Futures Trading Commission (CFTC), órgão federal responsável pelo mercado de derivativos. Já as casas de apostas tradicionais operam sob a autoridade das comissões estaduais de jogos.

Disputa sobre jurisdição

Sean Maloney, ex-deputado democrata e atual líder da Coalition for Prediction Markets, defende a manutenção da supervisão federal. Segundo ele, a regulação da CFTC tem histórico consolidado e estrutura técnica robusta. O presidente da agência, Michael S. Selig, declarou recentemente que a comissão possui a expertise e a responsabilidade de preservar sua jurisdição exclusiva sobre contratos baseados em eventos.

Os reguladores estaduais, no entanto, vêm acumulando decisões favoráveis. Em novembro de 2025, um juiz federal em Nevada proibiu a Kalshi de oferecer contratos esportivos no estado, sustentando que a interpretação da empresa desorganiza décadas de federalismo na regulação do jogo. O caso aguarda análise da Corte de Apelações do 9º Circuito.

Em janeiro de 2026, o órgão regulador de jogos de Nevada obteve uma ordem temporária contra a Polymarket. No mesmo mês, a procuradora-geral de Massachusetts, Andrea Joy Campbell, conseguiu uma liminar contra a Kalshi, afirmando que a empresa deve cumprir integralmente as regras estaduais se quiser oferecer apostas esportivas.

Dependência do segmento esportivo

Para a Kalshi, a disputa é estratégica. Dados divulgados pela própria companhia indicam que US$ 12,5 bilhões de seu volume total negociado estão ligados a contratos esportivos, enquanto todas as demais categorias somam US$ 4,7 bilhões. Aproximadamente 90% das taxas de transação arrecadadas têm origem em eventos esportivos.

A empresa chegou a alertar que, caso fosse obrigada a interromper seus mercados esportivos apenas em Massachusetts, precisaria liquidar cerca de US$ 650 milhões em contratos derivativos em aberto.

Enquanto isso, grandes operadoras tradicionais vêm adotando estratégia híbrida. A Fanatics lançou seu próprio mercado, o Fanatics Markets, no início de dezembro, defendendo interpretação distinta da AGA sobre mercados de previsão. A DraftKings apresentou o DraftKings Predictions em 38 estados. O CEO e cofundador Jason Robins afirmou que a empresa não pretende perder espaço competitivo e busca ampliar participação de mercado.

A retórica pública também se intensificou. O CEO da Polymarket, Shayne Coplan, classificou as casas de apostas reguladas como “golpe”. Em resposta, Robins declarou que críticas fazem parte da dinâmica competitiva do setor.

Movimentos estratégicos e cenário político

Na tentativa de fortalecer sua posição institucional, a Kalshi anunciou, no ano passado, a nomeação de Donald Trump Jr. como conselheiro estratégico. Em 5 de fevereiro, a empresa também divulgou novos mecanismos internos para prevenir práticas como uso de informação privilegiada e manipulação de mercado.

Para analistas do setor, entretanto, o impacto competitivo pode estar sendo superestimado. Chad Beynon, do Macquarie Group, avalia que o produto dos mercados de previsão é inferior ao das casas tradicionais, já que não oferece apostas combinadas (parlays) nem apostas ao vivo — modalidades que representam cerca de 30% do total movimentado nas apostas esportivas convencionais.

O desfecho da disputa dependerá, em grande medida, do ambiente político e das futuras decisões judiciais. Segundo Beynon, as empresas estão investindo rapidamente para garantir retorno enquanto o modelo permanece viável, conscientes de que o cenário regulatório pode mudar nos próximos anos.

A batalha jurídica em curso não apenas definirá os limites entre derivativos e apostas esportivas, mas também determinará quem controlará um dos mercados de entretenimento financeiro que mais crescem nos Estados Unidos.

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