Remédios para emagrecimento e apostas online já estão em até 30% dos lares e pressionam orçamento das famílias
Medicamentos para emagrecimento já estão presentes em até 30% dos lares brasileiros, enquanto apostas online alcançam 26% das residências no país. Os dados fazem parte de pesquisas da NielsenIQ Brasil que serão divulgadas no fim de fevereiro e revelam uma transformação relevante nos hábitos de consumo das famílias.
Segundo o levantamento, a expansão desses gastos reduziu a fatia do orçamento destinada a itens essenciais — como alimentos, bebidas, produtos de higiene e limpeza — de 23,5% em 2023 para 21,9% atualmente. A mudança ocorre em um cenário de crescimento modesto da renda, com aumento médio anual de apenas 1,7% entre 2003 e 2025.
De acordo com reportagem da Folha de S.Paulo, o fenômeno está associado também à ampliação da oferta de serviços e produtos que, duas décadas atrás, não faziam parte do orçamento regular das famílias brasileiras.
Base da pesquisa e novo perfil de consumo
Os dados têm como base o Painel de Lares da NielsenIQ, que acompanha periodicamente mais de 8.000 domicílios, e o NielsenIQ Retail Index, que monitora vendas a partir de informações fornecidas diretamente pelo varejo, incluindo redes de farmácias.
As apostas online apresentam maior concentração nas classes D e E, enquanto as chamadas canetas emagrecedoras são mais frequentes nas classes de maior renda. O estudo também revela a ampliação do acesso a serviços e tecnologia: 97% dos lares possuem celular, 85% têm acesso à internet e 43% contratam serviços de streaming.
Outras mudanças estruturais também aparecem nos dados. O percentual da população que investe em educação superior passou de 7% no início dos anos 2000 para 20,5% atualmente. Já o número de pessoas que pagam aluguel praticamente dobrou no período, saindo de 12% para 23%.
Explosão das canetas emagrecedoras
Entre os medicamentos para perda de peso, aparecem tanto versões oficiais quanto genéricas, além das chamadas “canetas do Paraguai” e versões manipuladas aplicadas por endocrinologistas em consultório — prática proibida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Na última Black Friday, três dos cinco produtos mais vendidos em farmácias foram canetas emagrecedoras, indicando a força do segmento.
Entre os principais medicamentos estão o Mounjaro, com custo inicial aproximado de R$ 1.400 por mês, e o Ozempic, atualmente vendido por cerca de R$ 1.000 mensais. A patente do Ozempic expira em março, o que deve permitir o lançamento de versões nacionais com preços mais acessíveis.
Há também alternativas como o Olire, da EMS, com custo em torno de R$ 300 por mês, ampliando o acesso ao tratamento.
Impacto das apostas no consumo essencial
No caso das apostas online, o percentual de 26% pode ser ainda maior, segundo Eduardo Fagundes, diretor de insights da NielsenIQ Brasil, já que parte dos usuários não declara publicamente o hábito.
De acordo com ele, muitos consumidores admitem reduzir gastos com alimentos e bebidas para manter apostas frequentes, na expectativa de obter renda extra. A dinâmica altera o fluxo tradicional de consumo e redistribui recursos que antes eram direcionados majoritariamente a produtos essenciais.
Fagundes observa que não há mais um comportamento linear de compra, como a tradicional “compra do mês” no atacarejo. O consumidor passou a diversificar pontos de venda, incluindo maior frequência em farmácias, e realiza compras semanais ou até mais frequentes.
Polarização de marcas e preferência por embalagens menores
Outra tendência identificada é a polarização de marcas. Para manter determinados padrões de consumo, o cliente opta por produtos mais baratos em algumas categorias, enquanto mantém preferência por itens premium em outras. Como consequência, produtos de preço intermediário perdem espaço.
Além disso, cresce a procura por embalagens menores. Mesmo sabendo que o custo por unidade é mais alto em comparação às versões maiores, muitos consumidores optam pelo formato reduzido por ser o que cabe no orçamento imediato.
O conjunto dos dados indica uma reconfiguração do padrão de consumo no Brasil, marcada por novas prioridades, maior digitalização e pressão sobre o orçamento doméstico. O avanço de medicamentos para emagrecimento e apostas online evidencia como hábitos recentes já impactam diretamente a estrutura de gastos das famílias — e devem continuar influenciando o mercado nos próximos anos.



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