Apostas entram no orçamento das famílias e já impactam consumo no Brasil, aponta NielsenIQ
Estudo revela que mais de um quarto dos lares apostaram em 2025 e parte já ajusta gastos para acomodar o hábito
Um levantamento inédito da NielsenIQ Brasil revelou que as apostas passaram a fazer parte relevante do orçamento doméstico em 2025. Segundo o estudo “Bets na Mesa, Consumo em Jogo”, 26,3% dos lares brasileiros realizaram algum tipo de aposta ao longo do ano.
Entre esses domicílios, quase metade (49%) enxerga a prática como uma forma de gerar renda extra, enquanto 43,5% apostam com a expectativa de promover uma mudança significativa de vida. O dado reforça a crescente associação entre apostas e planejamento financeiro, especialmente entre determinados perfis de consumidores.
Apesar da popularização, apenas 10% dos lares apostadores afirmam substituir gastos por conta das apostas. Ainda assim, entre os que fazem esse ajuste, os impactos são relevantes: 47% indicam redução em despesas com alimentos, enquanto 45,3% apontam cortes em contas fixas, como água, luz e internet.
A principal estratégia adotada para encaixar esse novo gasto no orçamento é a redução no volume de compras. De acordo com o estudo, 60% das categorias de consumo registraram queda na quantidade adquirida por esses lares.
As apostas também já impactam diretamente categorias consideradas não essenciais. Produtos como cerveja lideram a retração, com queda de 1,7 ponto percentual na participação dos gastos. Biscoitos, refrigerantes e perfumes aparecem na sequência, indicando que itens de indulgência são os primeiros a perder espaço.
Entre as modalidades mais populares, a Mega-Sena lidera com 15,8% dos lares apostadores, seguida pelos jogos de slot online — popularmente conhecidos como “Jogo do Tigrinho” — com 7,7%. O jogo do bicho e as apostas esportivas aparecem com menor participação.
O perfil dos apostadores varia conforme a modalidade. O “Tigrinho” concentra um público mais jovem e de nível socioeconômico médio, com 42,4% dos jogadores tendo até 35 anos. Já a Mega-Sena tem maior presença entre pessoas acima de 51 anos e com renda mais elevada.
Regionalmente, o Nordeste lidera em participação de lares apostadores, com 29%, seguido pelo Sul, com 28,3%, indicando diferenças relevantes no comportamento de consumo pelo país.
O estudo também segmenta os apostadores em três perfis: casuais (73%), que jogam ao menos uma vez por mês; “Pro” (28%), com frequência semanal; e “Elite” (9,3%), que também apostam semanalmente e gastam mais de R$ 100 por mês. Esses dois últimos grupos apresentam maior tendência de impacto no orçamento.
No recorte de renda, os dados mostram que os gastos com apostas ainda são relativamente baixos para a maioria. Entre os usuários do “Tigrinho”, mais da metade gasta entre R$ 30 e R$ 100 por mês, o que representa de 1% a 7% da renda mensal. Já na Mega-Sena, 55,5% gastam até R$ 30 mensais, refletindo um comportamento mais ocasional.
Ainda assim, o estudo aponta que as apostas passaram a disputar espaço direto no chamado “share of wallet” do consumidor. Lares apostadores apresentam maior comprometimento com dívidas e eventos sociais, além de leve redução na prioridade de consumo de bens de giro rápido.
Para o mercado, isso representa um novo desafio. As apostas deixam de ser apenas entretenimento e passam a atuar como um concorrente direto dentro do orçamento das famílias, exigindo que marcas ajustem estratégias de preço, comunicação e posicionamento para manter relevância.
O avanço desse comportamento reforça uma mudança estrutural no consumo brasileiro, onde o hábito de apostar começa a influenciar não apenas decisões financeiras individuais, mas também a dinâmica de diversos setores da economia.



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