Aviação registra recordes de passageiros e rebate associação entre crescimento das bets e estagnação do setor
Declarações do presidente da Gol sobre concorrência das apostas online reacendem debate sobre renda, consumo digital e expansão do mercado aéreo brasileiro.
O presidente da Gol, Celso Ferrer, afirmou que a aviação brasileira enfrenta dificuldades para ampliar sua base de passageiros e apontou mudanças no comportamento de consumo da população como um dos principais desafios para o setor. Entre os fatores citados pelo executivo estão o avanço das apostas online, o crescimento das compras digitais e a redução da renda disponível dos brasileiros.
As declarações foram feitas durante o Seminário Lide Turismo, realizado nesta semana. Segundo Ferrer, o mercado aéreo nacional permanece há anos operando em uma faixa próxima de 90 a 100 milhões de passageiros, sem conseguir avançar de forma significativa para além desse patamar.
“O setor passou por uma mudança no comportamento do consumidor, que perdeu, nos últimos dez anos, 19% de sua renda, e isso reflete no volume de passageiros”, afirmou o executivo ao analisar o cenário da aviação comercial no país.
Histórico de crescimento e estagnação
Durante sua apresentação, Ferrer relembrou o processo de expansão da aviação brasileira ao longo dos anos 2000 e destacou a entrada de novas companhias como fator importante para o crescimento do mercado.
Segundo ele, após um período de forte expansão, o setor entrou em uma fase de estabilidade entre 2010 e 2020, com o volume de passageiros oscilando próximo da marca de 100 milhões por ano.
O executivo classificou esse período como uma “década perdida” para a aviação nacional, argumentando que a falta de crescimento limitou o potencial de desenvolvimento do turismo e da conectividade aérea no país.
Dados apontam recorde de movimentação em 2026
Apesar da avaliação apresentada pelo presidente da Gol, os números mais recentes da aviação brasileira mostram um cenário de crescimento na movimentação de passageiros.
Entre janeiro e abril de 2026, foram registrados 44,3 milhões de embarques em aeroportos brasileiros, sendo 33,7 milhões em voos domésticos e 10,6 milhões em operações internacionais. O resultado representa um crescimento de 7,6% em relação ao mesmo período de 2025.
O desempenho também supera os números registrados antes da pandemia. Em 2019, considerado o último ano completo antes da crise sanitária global, o país contabilizou 39,6 milhões de passageiros nos quatro primeiros meses do ano. O resultado atual é 11,9% superior àquele período.
Os dados reforçam a recuperação do setor após o impacto provocado pela pandemia de Covid-19, que provocou a maior retração da história recente da aviação mundial.
Bets entram no centro da discussão
Ao comentar os desafios para ampliar a base de consumidores, Ferrer afirmou que as companhias aéreas passaram a disputar espaço no orçamento dos brasileiros com novas formas de consumo digital.
Segundo o executivo, gastos com apostas esportivas online e compras pela internet passaram a concorrer diretamente com despesas relacionadas a turismo e viagens.
A declaração reacendeu um debate que vem ganhando força nos últimos meses. Diversos segmentos econômicos têm associado o crescimento do mercado de apostas ao comprometimento da renda das famílias, embora especialistas apontem que fatores como inflação, endividamento, juros elevados e perda do poder de compra também influenciam diretamente as decisões de consumo dos brasileiros.
Redução de custos traz expectativa positiva
Enquanto discute formas de ampliar a demanda, o setor aéreo recebeu recentemente medidas voltadas à redução de custos operacionais.
O governo federal prorrogou até 31 de julho a isenção das alíquotas de PIS e Cofins sobre o querosene de aviação (QAV), benefício que inicialmente seria encerrado em maio. As empresas aéreas defendem que a medida seja mantida até o final do ano.
Além disso, a Petrobras anunciou uma redução de 14,2% no preço do querosene de aviação a partir de 1º de junho, movimento que pode aliviar parte da pressão enfrentada pelas companhias.
Setor defende desoneração para crescer
Para Celso Ferrer, o principal obstáculo para a expansão da aviação brasileira continua sendo a renda da população e a elevada carga tributária incidente sobre o setor.
Segundo o executivo, a manutenção de tarifas consideradas competitivas não tem sido suficiente para atrair novos passageiros, especialmente entre consumidores de renda média e baixa.
Como alternativa, ele defendeu a adoção de políticas de desoneração em níveis federal e estadual, argumentando que a medida poderia ampliar significativamente o mercado nos próximos anos.
De acordo com a projeção apresentada pelo presidente da Gol, a aviação brasileira teria potencial para aumentar em até 50% o número de passageiros transportados caso fossem implementadas medidas voltadas à redução dos custos operacionais e tributários.



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