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Especialistas alertam para risco de endividamento de clubes após boom de patrocínios de bets

Debate no São Paulo Innovation Week apontou que a explosão de investimentos das casas de apostas no futebol pode gerar impactos financeiros duradouros para os clubes

O avanço dos patrocínios de casas de apostas no futebol brasileiro pode deixar uma herança preocupante para os clubes. O alerta foi feito por Marcelo Damato, diretor-presidente da Pequi Consultoria de Regulação e Negócios e ex-assessor da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, durante debate realizado nesta quarta-feira no São Paulo Innovation Week.

Segundo o especialista, o forte volume de investimentos das bets nos últimos anos elevou significativamente os custos operacionais de diversos clubes, criando uma dependência financeira que pode se transformar em endividamento quando esses contratos forem encerrados.

“Houve um boom de patrocínio. Quando esse boom diminui, as dívidas aparecem”, afirmou Damato durante o painel que discutiu os impactos da regulamentação das apostas esportivas sobre o mercado de patrocínios no esporte.

De acordo com ele, esse processo já começou a ser observado em alguns clubes, inclusive antes mesmo do encerramento formal de determinados contratos comerciais. A explicação está no aumento de despesas estruturais impulsionado pela entrada massiva de recursos das empresas de apostas, o que acabou elevando o padrão de gastos das equipes.

O debate também abordou como a regulamentação do setor está mudando o cenário econômico das casas de apostas no Brasil. Com regras mais rígidas para operar legalmente no país, parte das empresas decidiu não permanecer no mercado regulado, reduzindo a competitividade e o volume de investimentos vistos anteriormente.

Alvaro Garcia, diretor de marketing da Flutter Brasil, afirmou que o setor caminha para um momento de maior racionalidade nas negociações com clubes e entidades esportivas.

Segundo ele, a tendência é que as decisões comerciais passem a ser mais estratégicas, com avaliações mais criteriosas sobre retorno de investimento, tamanho das marcas e relevância das parcerias esportivas.

A expectativa dos especialistas é de consolidação do mercado, com a saída gradual de empresas menores e a permanência de grupos mais estruturados financeiramente. Esse movimento, apelidado por alguns analistas como “êxodo das bets”, deve reduzir a quantidade de operadores ativos no país nos próximos anos.

O debate também tocou em um tema sensível para o setor: a possível proibição da publicidade de apostas esportivas. O Projeto de Lei 3563/2024, atualmente em discussão, propõe restringir anúncios em meios físicos, digitais e até patrocínios esportivos, com o argumento de combater vício em jogos e o endividamento das famílias.

Bernardo Cavalcanti Freire, sócio da Betlaw, defendeu que o caminho mais eficaz seria investir em conscientização e práticas de jogo responsável, em vez de uma proibição ampla da publicidade.

O painel integrou a programação do São Paulo Innovation Week, evento realizado no Pacaembu e na Faap, que reúne especialistas nacionais e internacionais para discutir inovação, tecnologia, finanças, esportes e tendências de mercado.

O debate evidencia que, enquanto o futebol brasileiro aproveitou o fluxo milionário das bets, o verdadeiro teste pode começar justamente quando esse dinheiro deixar de circular com a mesma intensidade.

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