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Setor de apostas enfrenta crise de imagem e precisa reagir no debate público, avaliam executivos

Especialistas do mercado regulado defendem comunicação mais ativa, diferenciação entre operadores legais e ilegais e maior presença institucional diante do avanço das críticas

O mercado regulado de apostas no Brasil atravessa um dos momentos mais delicados desde a implementação da regulamentação federal. Em meio ao aumento das críticas públicas, pressões políticas por regras mais rígidas e associação crescente das bets a temas como endividamento, vício e vulnerabilidade social, executivos do setor defendem que a indústria precisa reagir com mais presença institucional e comunicação estratégica.

Em análise sobre o atual cenário, representantes do mercado afirmam que a crise reputacional não decorre apenas dos desafios inerentes ao setor, mas também da ausência de uma atuação mais forte no debate público desde o início da regulamentação.

Para Joberto Porto, executivo jurídico da CDA Gaming, o setor demorou a construir uma narrativa institucional sólida enquanto se concentrava em exigências regulatórias, certificações, compliance e estruturação operacional.

Segundo ele, esse vácuo permitiu que críticas ao segmento ganhassem força sem contraponto proporcional, consolidando uma percepção pública negativa sobre as apostas online.

A avaliação é de que o mercado regulado acabou sendo frequentemente colocado no centro de discussões sobre problemas sociais complexos, como endividamento familiar e jogo compulsivo, mesmo diante da existência de diferenciações importantes entre empresas autorizadas e operações clandestinas.

Waldir Marques, diretor de relacionamentos da Todos Querem Jogar, reconhece que parte da postura inicial do setor foi marcada por prudência institucional, diante de um ambiente regulatório recém-criado e altamente sensível.

No entanto, ele admite que essa cautela acabou sendo interpretada como ausência no debate público, abrindo espaço para que outros grupos passassem a dominar a narrativa sobre o setor perante sociedade, Congresso e imprensa.

Os executivos defendem que compliance, arrecadação tributária, certificações e mecanismos de jogo responsável são fundamentais, mas insuficientes para sustentar, sozinhos, a legitimidade pública da indústria.

Na avaliação deles, mercados regulados também precisam investir em comunicação institucional, presença pública qualificada e diálogo transparente com a sociedade.

Outro ponto destacado é a necessidade de diferenciar de forma mais clara o mercado regulado das operações ilegais, já que, segundo os representantes, a percepção pública frequentemente mistura operadores autorizados e plataformas clandestinas como se fossem equivalentes.

Essa equiparação, afirmam, representa um risco direto à sustentabilidade do setor, já que empresas licenciadas investem em controles, rastreabilidade financeira, prevenção à lavagem de dinheiro e mecanismos de proteção ao consumidor, enquanto operadores ilegais atuam fora dessas exigências.

Apesar da crise reputacional, os executivos avaliam que o mercado brasileiro ainda possui potencial de consolidação, desde que consiga equilibrar viabilidade econômica, estabilidade regulatória, segurança jurídica e legitimidade institucional.

Entre as medidas apontadas como urgentes estão a ampliação da comunicação pública, produção de conteúdo técnico qualificado, fortalecimento de lideranças capazes de dialogar fora do ambiente interno da indústria e maior aproximação com imprensa, reguladores e sociedade.

O debate revela que, além dos desafios regulatórios e operacionais, o setor de apostas enfrenta agora uma disputa decisiva no campo da percepção pública — e, para seus representantes, permanecer em silêncio pode custar ainda mais caro.

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