Disparam notificações ao Coaf sobre apostas online suspeitas após regulamentação do setor
Número de comunicações salta para 27,6 mil em 2025 e reforça desafios no combate à lavagem de dinheiro
O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) registrou 27,6 mil comunicações de operações suspeitas envolvendo empresas de apostas online e loterias em 2025. O volume representa um crescimento expressivo em relação a 2024, quando foram contabilizadas apenas 928 ocorrências.
O aumento está diretamente ligado à entrada em vigor do marco regulatório do setor de apostas no Brasil, que passou a exigir que operadores comuniquem movimentações financeiras consideradas atípicas. As novas regras começaram a valer em janeiro de 2025.
Dados históricos mostram que, antes da regulamentação, o número de notificações se mantinha relativamente estável. Em 2023, foram registradas 1.157 comunicações, enquanto em 2022 o total foi de 1.344.
Embora as apostas de quota fixa tenham sido legalizadas no país em 2018, a regulamentação completa do mercado só foi concluída durante o atual governo federal.
Instituições financeiras ajudam a identificar operadores ilegais
Além das notificações feitas pelas próprias plataformas, instituições financeiras e empresas de pagamento também passaram a reportar suspeitas relacionadas ao setor. Em 2025, 54 instituições realizaram 1.255 comunicações à Secretaria de Prêmios e Apostas com indícios de atuação irregular.
A análise dessas informações levou à identificação de 265 operadores ilegais e resultou no encerramento de 550 contas bancárias vinculadas a essas atividades. Estudos de mercado apontam que empresas não autorizadas ainda representam cerca de 40% do segmento de apostas no país.
A Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda é responsável pela regulação e fiscalização do setor. O órgão atua em parceria com a Agência Nacional de Telecomunicações para derrubar sites irregulares e tentar reduzir o fluxo financeiro dessas operações.
Mesmo com os avanços regulatórios, o combate à lavagem de dinheiro ainda é considerado um ponto sensível. Parte das transações associadas a apostas ilegais continua fora do alcance dos mecanismos tradicionais de monitoramento utilizados por bancos e fintechs.
Coaf aposta em trabalho preventivo com bancos
Para ampliar a capacidade de identificação de operações suspeitas, o Coaf passou a estruturar um modelo mais sistemático de cooperação com instituições financeiras. A proposta prevê encontros regulares e compartilhamento de tipologias e padrões de movimentação que possam indicar o uso de plataformas de apostas para fins ilícitos.
A estratégia já vem sendo aplicada em outros segmentos emergentes, como o mercado de criptoativos, cuja regulamentação entrou em vigor em fevereiro de 2026.
Segundo fontes do órgão, muitas plataformas evitam utilizar registros empresariais explicitamente vinculados a apostas. Em alguns casos, operam por meio de empresas previamente constituídas — conhecidas como “empresas de prateleira” — o que dificulta a identificação automática dessas operações pelos sistemas bancários.
Regras para regularização e pressão sobre fintechs
Para atuar legalmente no Brasil, plataformas de apostas precisam obter autorização da Secretaria de Prêmios e Apostas, pagar outorga ao governo federal e cumprir requisitos como manter representação no país e utilizar domínio específico com a terminação bet.br.
As autoridades também têm buscado pressionar bancos e fintechs a reforçar controles internos. As instituições financeiras digitais passaram por mudanças regulatórias recentes e têm até maio de 2026 para solicitar autorização formal junto ao Banco Central.
Durante anos, parte dessas empresas operou sem necessidade de licença e, consequentemente, sem obrigação de compartilhar dados com o Coaf. O endurecimento das regras foi motivado pelo aumento de casos envolvendo o uso dessas estruturas pelo crime organizado.
O Coaf prevê um período de adaptação até que o fluxo de informações do sistema financeiro alcance maior cobertura e qualidade. Paralelamente, o órgão trabalha em melhorias tecnológicas para lidar com o crescimento esperado no volume de dados analisados.
Na avaliação de especialistas, o salto nas notificações em 2025 também pode estar relacionado ao comportamento mais cauteloso dos operadores diante das exigências regulatórias. A norma determina atenção redobrada a transações que apresentem indícios de lavagem de dinheiro, financiamento ao terrorismo ou inconsistências no perfil financeiro dos apostadores.
Unidade de inteligência financeira vinculada administrativamente ao governo federal, o Coaf atua principalmente na prevenção e no combate à lavagem de dinheiro. O órgão não julga operações nem aplica sanções diretamente, limitando-se a produzir relatórios sobre movimentações consideradas suspeitas conforme a legislação vigente.



Publicar comentário