Carregando agora

Apostas online avançam no Brasil e acendem alerta sobre endividamento e saúde mental

Com bilhões movimentados por mês, crescimento do setor expõe milhões de brasileiros a risco financeiro e comportamento compulsivo

As apostas online ganharam espaço no cotidiano dos brasileiros — e também no orçamento. Dados do Banco Central indicam que o setor movimenta até R$ 30 bilhões por mês. Em paralelo, cresce o número de pessoas em situação de risco: cerca de 11 milhões já apresentam comportamento problemático relacionado ao jogo, segundo levantamento da revista Fapesp.

Esse avanço ocorre em meio a um cenário de pressão financeira. Em fevereiro deste ano, o Brasil atingiu 81,7 milhões de inadimplentes, de acordo com o Serasa Experian. Um estudo do Instituto Locomotiva reforça o alerta: 86% dos apostadores possuem dívidas, e 64% estão com o nome negativado.

Para especialistas, o fenômeno exige análise cuidadosa e sem julgamentos simplistas. O professor José Augusto Reis, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, destaca que, em muitos casos, a entrada nas apostas está ligada à falta de alternativas financeiras. Segundo ele, há situações em que o indivíduo vê na aposta uma possibilidade — ainda que remota — de mudança de vida, especialmente diante de rendas limitadas.

A vulnerabilidade econômica aparece como um dos principais gatilhos. Em contextos de pressão imediata, como risco de despejo ou ausência de renda estável, a aposta passa a ser encarada como uma solução emergencial. Trabalhadores informais e pessoas sem garantia de ganhos fixos tendem a ser ainda mais expostos a esse comportamento.

Esse cenário se agrava quando combinado a fatores psicológicos. Ansiedade, depressão e impulsividade aumentam a propensão ao jogo e dificultam o controle. Em muitos casos, há um ciclo que se retroalimenta: a pessoa aposta, perde, enfrenta maior estresse e volta a apostar na tentativa de recuperação.

Embora frequentemente apresentadas como entretenimento, as apostas assumem outro significado para quem enfrenta dificuldades financeiras. A promessa de ganho rápido ganha força, especialmente com a influência das redes sociais, onde conteúdos que associam apostas a sucesso financeiro ajudam a reforçar essa percepção.

A presença constante do setor no esporte também contribui para a normalização. No futebol, por exemplo, a associação com casas de apostas se tornou recorrente, ampliando a exposição do público. Além disso, o acesso facilitado via smartphone torna o comportamento mais imediato e difícil de controlar, já que apostar exige apenas alguns toques na tela.

Do ponto de vista econômico, o professor Luciano Nakabashi, da Faculdade de Economia da USP em Ribeirão Preto, explica que o setor se apoia na busca por recompensas rápidas. Apesar da expectativa de lucro, a tendência estatística é oposta: quanto mais se aposta, maior a probabilidade de perda financeira.

Esse impacto atinge diretamente o orçamento das famílias. Recursos que poderiam ser destinados a despesas essenciais, como alimentação e moradia, acabam direcionados ao jogo. Em muitos casos, isso resulta em agravamento da situação financeira e aumento do endividamento.

Além disso, as apostas também funcionam como uma forma de escape para parte dos usuários, ocupando um espaço de lazer em rotinas marcadas por dificuldades. Ainda assim, especialistas reforçam que não se trata de uma alternativa de renda, e sim de uma atividade de alto risco financeiro.

O efeito no consumo é imediato: quanto maior o gasto com apostas, menor a disponibilidade de recursos para outras necessidades. Esse desequilíbrio pode comprometer a segurança alimentar e levar a um ciclo de dívidas difícil de interromper, especialmente quando o jogador tenta recuperar perdas com novas apostas.

Há, por outro lado, movimentos de regulação em andamento. O professor Maurício Dieter, da Faculdade de Direito da USP, aponta que já existem restrições, como a proibição do uso de recursos do Bolsa Família em apostas, com controle vinculado ao CPF. Ainda assim, ele reconhece que há brechas que dificultam a fiscalização, como o uso de dados de terceiros.

Especialistas defendem o avanço das regras, com atenção especial aos mais jovens, grupo mais suscetível a comportamentos compulsivos. Entre as propostas, estão limites mais rígidos para determinadas faixas etárias e o fortalecimento de mecanismos de controle e prevenção.

O tema também avança na área tributária. A Receita Federal já determinou que os ganhos com apostas deverão ser declarados no Imposto de Renda a partir de 2026, ampliando o monitoramento sobre o setor.

O crescimento das apostas no Brasil escancara um desafio complexo: equilibrar um mercado em expansão com a proteção dos usuários. Entre oportunidade econômica e risco social, o debate sobre limites, regulação e responsabilidade tende a ganhar ainda mais espaço nos próximos anos.

Publicar comentário

VOCÊ PODE TER PERDIDO