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Desenrola 2.0 pode bloquear apostas de endividados por um ano e impactar setor bilionário das bets

O governo federal anunciou nesta terça-feira mudanças no programa Desenrola 2.0 que podem atingir diretamente o mercado de apostas esportivas no Brasil. A nova versão da iniciativa prevê que participantes que optarem pelo parcelamento de dívidas ficarão impedidos de apostar em plataformas de bets durante o período de um ano.

A medida faz parte da vertical “Família” do programa, que tem como meta alcançar 20 milhões de brasileiros endividados. O Desenrola original, lançado em julho de 2023 para renegociação de débitos acumulados durante a pandemia, tinha expectativa de atender 30 milhões de pessoas, mas terminou com cerca de 15 milhões de participantes.

Dados da primeira edição mostram que 43% dos beneficiados possuíam dívidas inferiores a R$ 100. Além disso, 57% optaram por quitar os débitos à vista, enquanto 3,25 milhões de pessoas escolheram parcelar as dívidas — o equivalente a 21,67% do total de participantes.

Especialistas do setor avaliam que a restrição para apostas pode atingir apenas quem aderir ao parcelamento. Caso essa interpretação seja confirmada, consumidores que quitarem dívidas à vista continuariam liberados para utilizar plataformas de apostas online regulamentadas.

O possível bloqueio reacendeu debates sobre o impacto econômico da medida no mercado brasileiro de bets, que movimenta cifras bilionárias. Dados da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda apontam que o setor registrou receita bruta de R$ 37 bilhões em GGR em 2025, com aproximadamente 28 milhões de CPFs cadastrados em plataformas de apostas esportivas e jogos online.

Segundo os números oficiais, os apostadores representam 12,96% da população brasileira. O gasto médio mensal ficou em R$ 122 por usuário, totalizando cerca de R$ 1.464 anuais por apostador.

Com base na expectativa do governo de atingir 20 milhões de pessoas no Desenrola 2.0, uma projeção inicial indicava que mais de 4,3 milhões de brasileiros poderiam ficar impedidos de apostar caso o percentual de parcelamentos repetisse o desempenho da primeira edição. Nesse cenário, o impacto anual no setor poderia chegar a R$ 6,3 bilhões.

Entretanto, ao aplicar o percentual real de brasileiros que efetivamente apostam, o número estimado cai de forma significativa. A projeção mais conservadora aponta que 2,592 milhões de participantes do programa também seriam apostadores. Desses, cerca de 562 mil seriam impactados diretamente pela suspensão, considerando apenas quem parcelar dívidas.

Nesse caso, o reflexo financeiro estimado para a indústria das bets seria de aproximadamente R$ 822,7 milhões por ano.

O setor ainda destaca que beneficiários do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada já possuem restrições relacionadas às apostas em determinadas operações regulamentadas. Operadores afirmam que esse público representa cerca de 20% das rejeições em novas tentativas de cadastro nas plataformas.

Outro ponto que gera preocupação entre empresas do segmento é a possibilidade de migração de usuários para o mercado ilegal. Isso porque as restrições previstas no Desenrola 2.0 valeriam apenas para operações regulamentadas, enquanto plataformas clandestinas continuariam aceitando apostas sem qualquer bloqueio.

A discussão sobre o programa também ampliou o debate sobre fiscalização e combate ao mercado informal, que segue operando sem as mesmas exigências impostas às empresas autorizadas no Brasil.

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