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Mercado de apostas cresce no Brasil, mas desafio agora é segurar o jogador no ambiente regulado

Com bilhões em receita e milhões de usuários, setor enfrenta concorrência direta de plataformas ilegais mais “simples” de usar

O mercado regulado de apostas esportivas no Brasil fechou 2025 com 25,2 milhões de usuários ativos e uma receita bruta de R$ 37 bilhões. No mesmo período, mais de 39 mil sites ilegais foram bloqueados pelas autoridades. Apesar do avanço expressivo, o ambiente clandestino segue competitivo e continua atraindo parte dos apostadores.

O tema ganhou destaque em discussões recentes entre especialistas do setor de pagamentos durante um painel realizado no BIS SIGMA South America, em São Paulo, neste mês de abril. O consenso entre os participantes foi direto: a forma como os controles são aplicados pode definir se o jogador permanece no mercado regulado ou migra para plataformas ilegais.

Na prática, entraves operacionais fazem diferença. Depósitos demorados, saques travados ou processos excessivamente burocráticos tendem a afastar o usuário. Quando isso acontece, a migração para plataformas mais flexíveis — ainda que menos seguras — se torna um caminho natural, e o retorno ao ambiente regulado dificilmente ocorre.

Esse cenário é reflexo de uma vantagem histórica do mercado ilegal, que operou por anos priorizando conveniência e agilidade, sem as exigências de compliance. Com a regulamentação consolidada, o Brasil criou uma base jurídica sólida para o setor. O desafio agora é garantir que a experiência do usuário seja competitiva o suficiente para evitar a evasão.

Boa parte das discussões ainda se concentra no desempenho do Pix — especialmente no tempo de processamento das transações, taxas de aprovação e capacidade de lidar com picos de volume. Embora esses fatores sejam relevantes, especialistas apontam que representam apenas a superfície de uma operação mais complexa.

Operadores que atuam em larga escala precisam monitorar saldos em tempo real, gerenciar liquidez de forma precisa e garantir que os recursos estejam disponíveis no momento certo. Quando essa engrenagem funciona, o usuário não percebe. Mas falhas nesse sistema impactam diretamente a experiência e aumentam o risco de abandono da plataforma.

Pix vai além do pagamento e se torna ferramenta estratégica

Hoje, cerca de 99% das transações no setor passam pelo Pix, segundo estimativas do Banco Central. Esse volume cria um rastro de dados valioso, capaz de identificar padrões suspeitos, prevenir fraudes e mapear comportamentos de risco.

No entanto, esse potencial depende da permanência dos usuários no ambiente regulado. Quanto maior a migração para plataformas ilegais, menor a capacidade de monitoramento e controle.

Além da segurança, os dados também podem ser usados para promover o jogo responsável. Informações como frequência de depósitos, velocidade de gastos e comportamento após perdas já estão disponíveis nas operações do dia a dia. O desafio está em integrar esses dados entre operadores e provedores de pagamento para permitir ações em tempo real, antes que comportamentos de risco se agravem.

A expansão do Open Finance surge como um aliado nesse processo, ao facilitar o compartilhamento de informações entre diferentes instituições e ampliar a capacidade de análise.

Ajustes operacionais podem definir o futuro do setor

No curto prazo, especialistas apontam que melhorias operacionais são determinantes para a retenção de usuários. Processos de verificação de identidade (KYC) mais ágeis, integração eficiente entre plataformas e regras adequadas para chargeback são alguns dos pontos críticos.

Embora pareçam ajustes pontuais, esses fatores influenciam diretamente a decisão do usuário de permanecer no ambiente regulado ou buscar alternativas fora dele.

A meta de reduzir o mercado ilegal até 2027 exigirá mais do que ações de fiscalização. O bloqueio de sites é uma medida relevante, mas insuficiente por si só. Se a experiência no mercado regulado não for consistentemente superior, sempre haverá espaço para alternativas paralelas.

No fim, a questão central é objetiva: a jornada do usuário nas plataformas reguladas é, de fato, mais simples e eficiente do que nas ilegais? Atualmente, a resposta ainda varia de acordo com o operador e a estrutura de pagamentos adotada — e é justamente essa diferença que deve orientar os próximos ajustes do setor.

A evolução do mercado brasileiro de apostas não depende apenas de regras mais rígidas, mas da capacidade de equilibrar segurança, tecnologia e experiência do usuário em um ambiente cada vez mais competitivo.

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