Lula e governo passam a usar discurso religioso e familiar em temas como bets e jornada de trabalho
A seis meses das eleições, estratégia busca aproximação com eleitores conservadores e evangélicos
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e integrantes do governo federal passaram a adotar um discurso baseado em valores religiosos e familiares ao tratar de temas como apostas online e jornada de trabalho. A mudança ocorre em meio ao cenário pré-eleitoral e mira, principalmente, a aproximação com setores conservadores.
Nos bastidores, aliados identificaram a possibilidade de associar pautas como o combate às bets e o fim da escala 6×1 à defesa da família — um tema sensível para parte do eleitorado. Dentro dessa estratégia, o ministro da Secretaria-Geral, Guilherme Boulos (PSOL), também passou a direcionar sua comunicação a esse público ao anunciar o envio de um projeto de lei ao Congresso Nacional.
A mudança de abordagem surgiu após avaliações internas indicarem que medidas econômicas, como aumento salarial e ampliação de programas sociais, não foram suficientes para conquistar o apoio de grupos evangélicos e conservadores. Pesquisas analisadas pelo governo reforçaram essa percepção.
Durante sua trajetória política, Lula evitou vincular religião à política. Na campanha eleitoral de 2022, por exemplo, resistiu inicialmente à divulgação de uma carta voltada ao público evangélico, cedendo apenas após pressão de aliados. Agora, no entanto, o discurso tem ganhado novos contornos.
Em entrevista concedida nesta terça-feira a veículos digitais, o presidente voltou a criticar as plataformas de apostas online, associando-as a prejuízos financeiros da população. Segundo ele, novas despesas passaram a impactar os brasileiros nos últimos anos. “E agora tem as bets para assaltar o povo”, afirmou.
Lula também reforçou sua posição pessoal ao declarar: “Nós brigamos a vida inteira contra cassino, eu pelo menos, como cristão, agora o cassino está dentro da sua casa”. Ao ser questionado sobre a continuidade das plataformas, disse que o tema segue em debate dentro do governo.
Na mesma entrevista, o presidente declarou ter “compromisso moral, ético e até cristão” de impedir o retorno de adversários políticos ao poder, afastando especulações sobre uma possível desistência de disputar a reeleição.
No dia seguinte, Boulos apresentou o projeto que propõe o fim da escala de trabalho 6×1. Ao divulgar a proposta, o ministro utilizou uma abordagem voltada à valorização da convivência familiar. “É o projeto da família trabalhadora”, afirmou, defendendo que a medida permitiria mais tempo com parentes.
O ministro também destacou que a mudança possibilitaria maior participação em atividades religiosas e momentos de lazer, citando especialmente o impacto sobre mulheres que acumulam jornadas profissionais e domésticas. Segundo ele, a proposta busca reduzir a sobrecarga e ampliar o tempo livre.
Os temas das apostas online e da jornada de trabalho passaram a aparecer com frequência nas falas de integrantes do governo, indicando um movimento coordenado — ainda que, em alguns casos, os argumentos tenham sido desenvolvidos individualmente por membros da gestão.
No cenário eleitoral, pesquisas recentes apontam desafios para o governo nesse segmento específico do eleitorado. Levantamento do Datafolha indica que Flávio Bolsonaro (PL-RJ) possui o dobro da intenção de voto de Lula entre evangélicos, embora sem detalhamento dos percentuais.
Considerando o eleitorado geral, o estudo mostra um cenário de equilíbrio em um eventual segundo turno, com 45% das intenções de voto para Lula e 46% para Flávio Bolsonaro, dentro da margem de erro de dois pontos percentuais — configurando empate técnico. Ambos também apresentam altos índices de rejeição.
Diante desse contexto, o eleitorado



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